…o céu oferece visões infinitas…

2025

Alê Espaço de Arte

Rua Califórnia, 706
Brooklin, São Paulo, SP

Texto Curatorial

…o céu oferece visões infinitas…

O Alê Espaço de Arte tem o prazer de receber a exposição coletiva …o céu oferece visões infinitas…, corolário do curso Fala de Artista, ministrado pelas professoras Magnólia Costa e Ana Avelar durante o primeiro semestre de 2025.

Os quatorze artistas participantes do curso — Adriana Amaral, Adriana Granado, Ana Rey, Cali Cohen, Cristina Myrrha, Cynthia Leitão, Dee Lazzerini, Edilaine Brum, Gabriel Porfirio, Isa de Paula Santos, Leandro Celestino, Lucimar Bello, Marcia Gadioli e Rosana Pagura — discutiram, aprenderam e aprimoraram seu discurso para apresentar seus trabalhos ao se comunicarem com os agentes do sistema da arte.

Entendemos a mostra como uma reunião de ensaios poéticos que, ao se encontrarem no espaço expositivo, entram em diálogo na intenção de estimular as percepções do visitante. São produções de materialidades diversas, articuladas e alinhadas com os conteúdos sugeridos pelas obras.

Uma questão que permeia a curadoria sobre a arte contemporânea hoje é: quais são as inquietações dos artistas contemporâneos? Como a arte contemporânea se posiciona diante de um mundo em extrema convulsão?

A curadoria organiza-se em eixos, considerando, para a expografia da sala II, as afinidades entre as poéticas de Isa de Paula Santos (paisagem, fogo, intervenção), Cristina Myrrha (cerâmica, terra), Ana Rey (desborde, água), Rosana Pagura (flores, aromas), Cali Cohen (desenhos, não humanos) e Cynthia Leitão (figuração no limite da abstração). Já na sala I, a crítica social está presente no trabalho de Leandro Celestino, que utiliza suportes tradicionais da pintura – como telas e chassis – para interpelar o espectador sobre as diferenças sociais e raciais entre os seres humanos na sociedade.

Adriana Granado, por sua vez, utiliza o vídeo em looping para expressar sua crítica, partindo de sua condição de mulher em período de amamentação e questionando o não-lugar da mulher na história da arte.

Sobre ciência, luz e poesia: Dee Lazzerini e Gabriel Porfírio. Ambos partem de universos distintos, mas se encontram na ciência – na ótica (Gabriel) e na engenharia (Dee) – o articulador de suas explorações estéticas. Dee apresenta um trabalho laborioso de cor, luz e geometria, apropriando-se das características do material, o alfinete. Já Gabriel, de maneira
singela, mas não menos eficaz, convoca a luz por meio da lente fresnel e das transparências do suporte de acrílico, revelando a composição da luz.

Memória pessoal e memória coletiva: Marcia Gadioli e Edilaine Brum. Marcia conecta a história da cidade e suas transformações às alterações que essas mudanças provocam nos indivíduos, utilizando técnicas como frotagem e transferência de imagem em papéis de diferentes qualidades e gramaturas. Edilaine, por sua vez, trabalha com memória pessoal, afetos, subjetividade e o feminino, trazendo objetos de outros tempos em composições que funcionam como disparadores de memórias.

O feminino, corpo e performance: Lucimar Bello. A artista, com vasta trajetória na arte, interesse pelo feminino e pela literatura, aborda o tema por meio do corpo em movimento e de pequenas esculturas brancas alojadas em caixinhas de madeira.

Natureza, ciclos da vida: neste recorte da pesquisa fotográfica de Adriana Amaral, que retrata flores e seu ciclo final, convida à reflexão sobre o declínio da vida natural. Em contraposição, surge a força da natureza nas mais recentes pinturas de Rosana Pagura, que sugerem aromas que só podemos imaginar.

Na sala II, no desenho de paisagem realizado com carvão e pastel, Isa de Paula Santos reinterpreta os desenhos dos viajantes, intervindo-os com elementos contemporâneos que afetam de forma violenta a paisagem atual de diversas regiões do Brasil. Cali Cohen representa, através de seus desenhos feitos com diversos materiais, seres não-humanos emaranhados, reclamando seu espaço à vista do público. A preocupação da artista emerge com força nesse trabalho.

A abstração no limite da figuração é explorada na pintura de Cynthia Leitão, onde várias camadas de tinta sobrepostas permitem ver através delas, evidenciando o interesse da artista pela pintura. Cynthia organiza com soltura suas imagens em diferentes escalas, com linhas que parecem flutuar no espaço pictórico. Rosana Pagura e Ana Rey compartilham esse núcleo, embora em salas diferentes.

Sobre a terra, na argila moldada pelas mãos de Cris Myrrha, surgem figuras envolventes, estilizadas e de extrema fragilidade. A artista explora profundamente o comportamento do material, realizando uma pesquisa de luzes, sombras, entrâncias e saliências.

No trabalho de Ana Rey, confluem materiais naturais como madeira, papel kraft e o técnica do corte. Uma gota, várias gotas – o Desborde. O suporte, uma caixa de madeira que abriga os papéis, está ligado e colado ao seu desenho.

Para concluir, os trabalhos exibidos ao público exploram algumas respostas possíveis sobre o contemporâneo, pois …o céu oferece visões infinitas…

Isabel Villalba
Curadora