Modelos de Mundos
Gare Cultural

2022

Texto Curatorial

Modelos de Mundos

Em uma imersão de uma semana na Gare Cultural, tendo como catalisadora a artista Corina Ishikura, um grupo de artistas teve a vivência de encontros com trocas, leituras e exercícios variados, expondo agora suas produções mais recentes.

Agrupados em diálogos pertinentes, dúvidas necessárias, formas e cores complementares ou discrepantes, assim como a vida é, modelos de mundos se conectam, reagindo às provocações do dia.

Com pesquisas poéticas variadas e suportes como pinturas, desenhos, objetos, fotografias, gravuras e novas mídias, temos gerações e procedências diversificadas, tudo misturado entre convergências contemporâneas, onde o  discurso de cada um ganha força e coesão.

Assim procuramos reunir questões éticas, formas orgânicas, observações e invenções para mundos que por ventura possam vir a existir para o bem ou para o mal. Ruídos e silêncios, construções e desmoronamentos.

Recortes de um tempo que não para de se reinventar. Fragmentos da memória, observações de conflitos e esperanças também. A vida na berlinda.

Para resumir as narrativas, pedi a cada um dos artistas uma palavra para definir suas obras. Assim sendo:

Corpo de Arlette Kalaigian: o acolhimento do corpo através da sensualidade das formas e na sobreposição de tons e cores. Pinturas e esculturas com sugestões corpóreas.

Desejo de Caio Borges: estruturas de mundos surreais explodindo em cores e formas sensuais, com pinceladas da pop art. Cenas e personagens construídas livres do pré-estabelecido.

Desconfigurar de Charles Cunha: o recurso de filtros e dispositivos eletrônicos para encontrar uma nova visualidade humana, especialmente para o autorretrato. Na tela eletrônica ou algodão, hibridismo e desfiguração.

Adeus de Claudia Briza: o incômodo do fim do mundo na reinterpretação das matérias e nas paisagens sugeridas. Pelúcia e madeira bruta viram suportes para expor o apocalipse.

In[h]umano de Corina Ishikura: mundos imaginários, reais e fantásticos, conectados no orgânico. Como se das profundezas do oceano, comunidades integradas para uma dança espontânea.

Ruínas de Heloisa Lodder: do pó e de vestígios urbanos, a reinvenção da memória em fragmentos e utilitários da arquitetura. Apropriando-se dos restos, elabora-se novas e sólidas estruturas.

Conexões de Jussara Marangoni: a ideia de um mundo mais abstrato interligado, chegando em fragmentos de imagens orgânicas. Pinturas e gravuras delicadas sugerindo a poesia.

Silêncio de Marcia Gadioli: a documentação fotográfica como uma pausa necessária para escutar os vazios, recortando as sutilezas do preto e branco. Detalhes do espaço expositivo como protagonistas da cena.

Coadjuvante de Paulo Pinheiro: as linhas do desenho ganham tridimensionalidade e percursos de equilíbrio com materiais usados para o suporte da técnica. Fitas adesivas transformadas em engrenagem de paredes.

Reminiscências de Rosa Grizzo: as lembranças têxteis e afetivas em tecidos e papéis delicados. Agulhas e linhas costurando e recriando memórias guardadas. Branco e vermelho do universo feminino.

Conexão de Tuca Estefânia: o sol como memória diária, reproduzindo afeto e conexões íntimas e anônimas. O sistema tradicional de envio postal para alcançar as saudades.

Isto posto, concluímos que a arte também pode ser acolhimento para tempos distópicos. Encontrem seus pares, inventem seus mundos.

Renato De Cara
Julho de 2022